O inconsciente colonial da psicanálise (Lançamento em Salvador Bahia)
- martinmezza

- 14 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Bom dia,
Estamos em casa. Onde tudo começou. O livro está em casa. Na Bahia. Em Salvador. Na casa de Benin, com o Ifé estampado na capa para homenagear o reino e a língua Iorubá - obrigado por acolher-nos.
Estamos no Pelô, o pátio de casa, como costumo brincar, já que a mais de dez anos as suas ladeiras e vielas me apresentam uma nova sensibilidade, que exige uma permanente reorganização da minha existência.
Obrigado por estarem conosco.

Por que escrever este livro?
Não tenho achado melhores razões que as apresentadas por Frantz Fanon em “Pele negra, Máscaras brancas”.
Fanon:
“Por que escrever esta obra? Ninguém a solicitou. E muito menos aqueles a quem ela se destina. E então? Então, claramente, respondo que há imbecis demais neste mundo”.
Uma noite de 2019, esse excesso de tolice se apresentava a público com um papo que já estava de manhã, como diria Caetano Veloso, para negociar os conceitos da teoria psicanalítica, embora degradados sob a forma de jargões, com os estereótipos mais próprios da ideologia colonial e do discurso racista.
O silêncio da plateia foi ainda mais estridente que essa fala para lá de Marrakesch.
Fomos sabendo que esse silencio cabe no conceito de contrato ou pacto da branquitude. Remarco que se trata de um conceito e que o sufixo nominal indica uma condição ou estado do radical e não, e não, do ser. Por tanto, a zona dos radicais habilita diferentes pactos.
Na semana seguinte a essa escura noite de 2019, um grupo de psicanalistas, que excedem em muito as autorias do livro aqui apresentado, começava a pesquisa intitulada inicialmente como: “Psicanálise, decolonialidade e pós-colonialidade”.
Porque publicar quase 7 anos após de iniciada nossa pesquisa? A pesquisa demora mais que a (re)produção de discurso.
Recusa a sustentar o discurso do mestre pervertido.
Estávamos advertidos que os psicanalistas somos falados por Freud e Lacan. Somos falados por uma língua, um dialeto. Alguns o chamam de Lacanês ou freudolacanismo.
Precisávamos curar-nos da psicanálise. Dos seus Clichês.
Recusa ética e metodológica a fazer isso que David Pavon-Cuellar em seu capítulo (O inconsciente da psicanálise interrogado pela consciência da colonialidade) descreve com precisão. Como com esse discurso, a psicanálise interroga a ciência, a arte, a religião, a moral, a forma de amar, questões de gênero, identitárias, de colonialidade e racismo.
Porém, não aceita de bom grado as interpelações que se lhe dirigem.
As interpretamos como ataques…
Enquanto a pesquisa avançava, no contexto institucional do qual fazemos parte (Apola), produzimos dois livros mais:
- Lacan. A revolução negada.
- Dos (pre)conceitos freudianos para uma psicanálise por vir.
Como não íamos escrever este livro, se já tínhamos atravessado os obstáculos epistemológicos que esmagam a novidade do pensamento de Lacan e os (pre)conceitos da teoria freudiana, que fazem com que muitas das suas teses se tornem contrárias à sua própria descoberta? Ou, para dizer melhor, da sua invenção.

O título do livro, parece-nos claro. No entanto…
Não pretendemos dizer que a psicanálise é colonial. Ser (colonial) ou não ser (colonial), não eis a questão. Pelo menos para este trabalho, e, com o perdão de Shakespeare.
Nos recusamos a utilizar o discurso psicanalítico como uma cosmovisão, agora traduzida em chave decolonial ou pós-colonial para estar à moda.
Mas também, como Edward Said, Grada Kilomba, Home Bhabha e tantos outros, rechaçamos com todas nossas forças cancelar em bloque à psicanálise, sob o pretexto da sua origem.
E ainda, nos opomos a fazer parte da produção de um discurso psicanalítico pós-colonial, decolonial, contracolonial, como vocês queiram, que dá as costas à teoria psicanalítica. Ou pior, ou pire, mantendo intocada a sua gramática, ou seja, sendo incapaz de alterar de forma consistente e de direito alguma das noções da teoria psicanalítica, decide torturá-las para fazer com que digam o que não podem e que a nova discursividade psicanalítica, ajustada à decolonialidade, quer que diga.
Neste livro o leitor não encontrará a produção de um discurso, nem esse entusiasmo que, entre parêntese, tanto despreciava Fanon.
Aposto que ninguém lerá uma só linha deste livro e exclamará: Uhuuu!
Desculpas! Não é essa chave.
Tampouco se procura aquele leitor, leitor talvez seja uma palavra grande demais, adepto ao gesto abreviado, acelerado e repetitivo de flexão e extensão cervical que balança sob o gozo da identidade. Aquele leitor que se satisfaz com contradizer Freud ao fazer existir a experiencia de satisfação, que goza em sempre achar o que lhe confirma sua posição inicial. De qualquer maneira, poderá beneficiar-se da leitura, pelo menos desde uma perspectiva fisioterapêutica, ao ver-se forçado a realizar o movimento contrário, contrariado, de rotação cervical.
Gostaria de evitar os equívocos, que a falta de humor e a profissão paranoide da má fé costumam provocar. Não estou negando a importância política e a necessidade prática de renovar, atualizar ou mudar o discurso psicanalítico, assim como não deixo de reconhecer os ganhos de incorporar novos lugares de fala. Apenas, quero fazer lugar a nosso aporte, destacar a importância que tem o trabalho teórico nesse processo.
Isso não deveria ser novidade para ninguém. Bastaria lembrar o gesto de Lacan quando disposto a escrever a estrutura e a lógica do discurso psicanalítico como avesso ao discurso do mestre. Nessa ocasião, viu-se obrigado a virar de cabeça o complexo de Édipo freudiano. Isto é, concordar com Malinowski, Lévi-Strauss e Fanon – C. de Édipo: mito reduzido, que muitas vezes não passa de uma piada ou que resulta inservível, atravessado de ponta a ponta pelo caráter androcêntrico, patriarcal e colonial. Assim, entre outras manobras, o despojou de qualquer resíduo do mito da horda primeva à qual chamou de palhaçada darwinista e que nós, em um capítulo desta obra, redefinimos como palhaçada colonial.
Por isso, entre a produção discursiva e a reorganização das práticas, trabalho teórico.
Contexto de surgimento, condições de produção e efeitos de significação das noções psicanalíticas que comprometidas com o debate das luzes, também o estão com as sombras em que a colonialidade articula a diferença, a fenda do sujeito.
Mais uma vez…
Quando dizemos que neste livro colocamos uma casca de banana sob o pé da psicanálise para ver como se sai do embaraço eurocêntrico, há que notar que a palavra-chave é o verbo sair.
Não nos habita o gozo da comicidade. Não queremos fazer escorregar ninguém. Muito menos, rir disso.
Propomos um trabalho teórico como dispositivo capaz de redefinir os limites da psicanálise, mas também de recusar a lógica essencialista e o referente mimético para a representação política, ou seja, o trabalho teórico como argumento contra o separatismo político de qualquer cor.
Em definitiva, vamos em busca das encruzilhadas!
Obrigado!


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